um desabafo sobre preconceito

vou lhe contar um historinha…

Era uma vez uma menina que sempre gostou muito de observar. Ela observava como seu pai tinha habilidades na cozinha, como sua irmã tocava piano muito bem, como sua mãe enfeitava seus cabelos. Ela amava usar laços no cabelo, do tipo, laços vermelhos bem gigantes.

Essa doce, e um pouco tímida, garota colecionava amizades e ela gostava muito de suas amigas. Elas lhe faziam bem todos os dias, e não mal. Elas a ajudavam em tudo, embora mal se davam conta disso.

Tudo lhe parecia bem. Até que algo lhe foi de mal a pior.

Seus cabelos eram bem enroladinhos, um pouco difíceis de arrumar. Sua pele não era e nunca seria branca. Enquanto ela se divertia com suas amigas, podia ouvir alguns insultos sobre seus cabelos. Alguém a chamava de poodle. E, na escola, vez ou outra, de “churrasquinho queimado”.

Essa garota chorava, e muito. Ela não sabia o que fazer. Até pedia ajuda aos professores, mas não parecia suficiente para fazer parar sua dor.

Eu queria olhar para essa Flavia de muitos, muitos anos atrás e dizer a ela que tudo acabaria bem. Que aquelas palavras não deveriam ofender nem tocar sua alma, que aquelas feridas iam cicatrizar e que não deveria permitir, nunca mais, alguém lhe machucar outra vez.

Talvez você nunca vai saber o que é ser agredida pelo racismo, mas eu sei.

Eu entendo a dor de tantas pessoas que, como eu, tem que saber se colocar acima de comentários de pessoas tão pequenas que precisam ofender outras para se sentirem um pouco melhor.

De pessoas fracas que precisam agredir outras para se sentirem fortes. Por isso, precisam fazer dessa hábito uma constante, como se fosse um hobby. Um hobby bem cretino.

Ainda olho nos olhos de muitos desses que ofenderam tempos atrás e talvez eles não sabiam o quanto aquelas palavras, hoje, me fazem bem.

Isso mesmo o que acabou de ler.

Eu não abaixo minha cabeça diante do racismo. Hoje eu encaro de igual para igual. Só consigo sentir pena, por serem pessoas tão baixas por se valerem disso.

Aqui está o segredo de como podemos agir diante do preconceito: deixando a pessoa ser ridícula sozinha, porque é esse papel que ela se propõe fazer.

Não vou negar (e não podemos): o negro ainda é minoria em lugares, mas é tão bom quando se está por lá pra incomodar. Acho tão incrível quando noto uma família de negros abrilhantando um bom restaurante. É  prazeroso olhar ao seu redor na fila de embarque do aeroporto e perceber que a única negra é você. Ou você e mais um. Mais dois ou três. Ou quatro.

Também é outra realidade pisar em um shopping luxuoso e ter que ver gentinha engolir o fato de que há pessoas que tem a mesma cor de uma funcionária dela podendo pagar e usufruir tanto quanto ela pode.

“Mas, Flavia, por que mencionar a ascensão do negro e seu poder aquisitivo?”

Ora, não sejamos hipócritas. Não vamos fazer essa linha.

É um negro no Brasil que você mais vê sendo parado quando se está no volante de um carro bacana, não é um branco.

 

Não tem como não ver.

Como isso dói! Ainda espero (estar viva) para ver esse cenário mudar, como eu quero! Ainda é difícil lidar com esse tipo de assunto que expõe tantas feridas, não só aqui. Não é uma realidade exclusivamente nossa.

Em uma das viagens que fiz, provavelmente em 2015/2016, pude conversar com uma menininha em uma tarde de outono pelos arredores do Brooklyn, em Nova York. Ela devia ter lá os seus seis anos de idade. Ela me perguntou se gostava da forma como estavam seus cabelos naturalmente crespos.”Of, course! You´re so beautiful, my little girl“/”claro, você é tão linda, minha garotinha”, respondi olhando fixamente em seus olhos.

Eu gostaria de ter respondido dessa forma tão rápida e inquestionável a Flavinha de 1996.

Que bom que hoje posso dizer isso a ela, já que ainda faz parte de mim.

1 comentário Adicione o seu

  1. Rosemary Maia disse:

    Flavia, quando a pessoa conhece o verdadeiro Deus. Ela passa a se valorizar e a cor de pele os preconceitos, como acontece com quem é Albino também, deficientes como bispo Macedo, síndromes de Down, disso ou daquilo.
    Deus nos faz maior que os olhares deste mundo. E nós faz grande quando todos nós vêem pequeno. Você está colhendo o que plantou com a sua fé. Te amo desde quando era ainda uma criança. Eu via em você o valor que Deus queria te dar e também a mim. Bjs

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