Sobre o ódio ao glúten

Você pode substituir o espaguete de domingo por outro sem glúten, por exemplo. Só que não. Saiba o que coloca em xeque a teoria de uma vida feliz da ‘dieta sem glúten’

O pobre glúten foi excomungado da dieta de muita gente. Na ânsia de ser ver livre, mulheres fogem de um inofensivo biscoitinho tradicional, recusam um bolinho no final da tarde e passam longe de um mísero farelo daquele cereal matinal que alguém comeu no café da manhã.

A dieta com restrição total de glúten vingou na moda graças à opinião de algumas celebridades e toda gama de digital influencers que afirmam aos quatro ventos ter perdido horrores de quilos ao declarar guerra a simples proteína. Nos supermercados, prateleiras com produtos ‘free gluten’ anunciam com letras garrafais que pães, massas e bolachas estão livres do então ‘mau’ elemento. Desde então, publicações intituladas como de ‘saúde e emagrecimento’ vinculam matérias bem sugestivas com relação a exclusão destes nutrientes da alimentação, independente da necessidade de cada um.

O que é o glúten?

O glúten é uma das proteínas mais consumidas no mundo. De origem vegetal, está presente no trigo, no centeio, na aveia, no malte e na cevada. E a gastronomia deve muito a ele. Afinal, é o glúten quem confere elasticidade na massa e faz o pão crescer.

No entanto, trata- se de uma proteína que não consegue ser totalmente digerida pelo corpo humano. De difícil digestão, pode confundir o sistema imunológico que passa a atacar as paredes do intestino. O resultado desse processo inflamatório é que o corpo não consegue absorver corretamente os nutrientes.

Até então, o glúten era excluído da alimentação mediante um diagnóstico comprovado da intolerância ou alergia feitos por meio de exame de sangue, testes genéticos e, se necessário, biópsia. Vale lembrar que apenas 1% da população mundial (grifo da autora) apresenta intolerância ao glúten.

Perda de peso

Enquanto os celíacos estão proibidos de comer alimentos que a contenham, há uma parte da população que está simplesmente convencida de que a proteína faz mal ou que vão perder peso se deixar de colocar o glúten no prato. Mas os especialistas são unânimes: não há evidências de que o não celíaco tire grandes benefícios da exclusão.

Primeiro, porque produtos com glúten são extremamente nutritivos pois têm fibras, ferro, vitamina B e cálcio. O oposto dos alimentos ‘gluten free‘ que, por passarem por processo de refinamento, acabam perdendo boa parte dos nutrientes.

De acordo com um artigo publicado recentemente na BBC, 29% dos adultos americanos – ou 70 milhões de pessoas – tentam se livrar da proteína. Já no Reino Unido, 60% dos adultos já compraram um produto sem glúten e em 10% dos lares há alguém que acredita que glúten faz mal para a saúde, de acordo com dados do site de pesquisas YouGov.

Acontece que, ao escolher os substitutos sem glúten, pouca gente se atenta para um detalhe. Uma bolacha comum tem cerca de 70 calorias. Sem glúten, o mesmo biscoito pode chegar a 210, segundo uma matéria veiculada pela BBC. O prodígio da multiplicação está em justamente no fato que as empresas precisam substituir o glúten com outro ingrediente igualmente aceitável e, primeiras das opções, estão gordura e os açúcares. Vale lembrar que uma grama de proteína equivale a 4 kcal, enquanto da gordura equivale a 9. Está explicado então porque muita gente sente o efeito contrário ao excluir o glúten da alimentação.

A título de curiosidade, um estudo publicado American Journal of Gastroenterology mostrou que 81% dos celíacos que adotaram uma dieta livre da substância ganharam peso. Imagine os não celíacos.

Mas também não podemos negar que algumas pessoas encontram sucesso na perda de peso. Pelo simples fato de substituem alimentos industrializados por opções mais saudáveis e, consequentemente, acabarem consumindo uma quantidade de calorias inferior ao habitual.

Prova de que o segredo do sucesso do emagrecimento não está em abolir o glúten da dieta, e sim, em fazer escolhas acertadas.

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